domingo, 9 de agosto de 2015

João Belizário de Souza, meu pai




É domingo – para ser mais preciso, segundo domingo de agosto de 2015 –, é Dia dos Pais. E, por ser Dia dos Pais, quero com esta que é mais uma das minhas insignificâncias literárias prestar homenagem a um homem especial, João Belizário de Souza, meu pai. Quero homenagear o homem que me gerou e, bravamente, honestamente, sofridamente, mas, acima de tudo, honrada e alegremente me criou.

Era simples, muito simples; pobre, muito pobre e não sabia ler nem escrever, mas, a despeito disso tudo e muito mais, era sábio, honesto, trabalhador, admirável. Era imperfeito?... Sim, ele o era (como todo ser humano é); era, contudo, um homem extraordinário: não posso jamais esquecer o seu exemplo. Não vou jamais deixar de admirá-lo e de sofrer pela sua ausência, como sofro agora com as lágrimas incontidas a descerem pelo canto dos olhos, tal qual tantas vezes me te acontecido e haverá de acontecer ao longo dos meus dias sobre a terra.

Choro o choro inconsolável, qual o choro de Raquel por seus filhos, porque ele já não existe no plano físico: foi chamado pelo Senhor, Criador e Mantenedor do Universo no dia 20 de janeiro de 2007, quando, aproximadamente, às 15h30, faleceu de morte natural, antes de completar 72 anos de idade.  Falo do velório dele na crônica “Ab imo pectore, meu pai”, já perenizada pela publicação em livro. É tudo que posso fazer por ele  – e o faço como muito gosto e muita honra –, não obstante o repute muito pouco.

Quando criança e adolescente, admirando os grandes escritores e desejando ardentemente segui-los, imitá-los, acalentava o sonho de escrever um texto muito lindo, que fosse o texto mais lindo independentemente de ser em prosa ou em verso, no qual descrevesse a castanheira, a Bertholettia excelsa. Jamais consegui fazê-lo, porque tudo que produzi achei inexpressivo e rejeitei: joguei fora, destruí. Com o tempo, esqueci isso, deixei de mão, perdi o interesse.

Pois bem. Tenho hoje a mesma sensação em relação a meu pai e, conquanto não jogue fora o que escrevo, sempre reputo inexpressivo o que produzo a seu respeito. Aliás, eu falo disso no fim da crônica “Ab imo pectore, meu pai”. E é verdade. Há, porém, uma diferença: perdi naturalmente o interesse juvenil de falar sobre a castanheira, jamais perderei, contudo, o interesse apaixonado de falar sobre o meu pai!

A morte o levou, eu sei, mas ele estará sempre comigo ao longo da minha vida na terra, na minha mente e no meu coração de filho agradecido. A morte não o tirará jamais de mim, senão quando também me levar, no tempo devido, a prestar contas ao Criador! Eu creio nisso, embora respeite a quem não crê. Matéria de fé é matéria de fé. Viva João Belizário de Souza, meu pai!

Fecho com as Escrituras Sagradas, autoridade maior para todo aquele que crê: “Ouve a teu pai, que te gerou, e não desprezes a tua mãe, quando vier a envelhecer” (Provérbios 23.22). “Audi patrem tuum, qui genuit te, et ne contemnas cum senuerit mater tua” (Proverbia 23,22). Listen to your father, who gave you life, and do not despise your mother when she is old” (Proverbs 23:22).    

domingo, 22 de fevereiro de 2015

A trajetória de um dia



A trajetória de um dia...

É, pouco ou muito, tudo o que se faz
É a rotina – doce, amarga ou indiferente –
De gente pobre e fraca que com tudo se apraz,
Ou de gente rica e audaz que de tudo se ressente


A trajetória de um dia...


É o espaço físico da curta, ou longa rotina
É a medida do medo na palavra da bravata
É o resvalar muito inglório que apouca e amofina
Na angústia bolorenta da incerteza que mata


A trajetória de um dia...


É a aura viva da esperança que conduz
E se não deixa aniquilar pelo ato que desampara
É a força imarcescível do ânimo que reproduz
A alegria do recomeço na resiliência tão cara


A trajetória de um dia...


É incerteza, medo e angústia em compasso de espera,
Mas é também esperança, que não morre nem cansa
É o recomeçar depois de um fim, com esperança de acertar
É vida a se abrir no que nasce sem se fechar no que morre


A trajetória de um dia passa, finda, mas principia!

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Medo



Medo, muito medo
Eu tenho medo
Medo de fracassar
Medo da depressão
Medo da opressão
Medo da loucura
Medo do passado
Medo do presente
Medo do futuro
Medo da arrogância
Medo da falsidade
Medo dos donos da verdade
Medo dos outros
Medo de mim
Medo da vida
Medo do medo
Medo do mundo
Medo de tudo
Eu tenho medo, muito medo
Sou homem, de carne e osso
Sou, por isso, imperfeito
Como objeto, ou como sujeito
Por isso, confesso: tenho medo
Não nego nem faço segredo
Ai, que medo!...

domingo, 4 de janeiro de 2015

Mensagem de aniversário ao meu filho Douglas



Douglas Monteiro, meu filho amado:


Hoje, 4 de janeiro de 2015, você está no berço, completa mais um ano de vida, em nossas vidas! Parabéns, meu filho! Pena que a distância física me impeça o abraço paterno tão merecido do dia hoje: estou em Marabá e você está em Bragança, neste nosso Pará de dimensões continentais. Sinta-se, contudo, abraçado, meu filho. Receba-o da pessoa do Samuel, seu irmãozinho que tanto o admira, e da Câmelha Pereira Santos Souza, sua madrasta, que aí estão para o tratamento da saúde dela e me representarão neste ato. Também a dona Maria José Brito Correia, sua mãezinha querida, o fará. A Lene, sua amada mulher, e a Noelma, Noângela e Neumária, suas irmãs biológicas, também o farão.

Você é um homem bom e tem muitas qualidades, dentre elas a profunda bondade e humildade, que – tenho convicção absoluta – herda de sua mãe, Maria José Brito Correia, uma das pessoas mais humildes e bondosas com quem tive até hoje a oportunidade de conviver. Continue assim, meu filho. Continue, porque a bondade e a humildade sempre haverão de abrir portas na sua vida.

Ah, meu filho, ocasiões como esta são sempre oportunas para o agradecimento e o pedido de perdão. Quero, pois, agradecer a Deus pela dádiva da sua vida em nossas vidas, meu filho, mas quero também lhe pedir perdão pelos erros que cometi em relação a sua pessoa, ao longo de sua criação. Ah, meu filho, eu sei que errei tanto! Sim, eu errei muito. Saiba, contudo, que jamais o fiz propositadamente, todos os erros cometidos por mim foram na intenção paterna e amorosa de acertar. Perdão, meu filho! Perdão.

Mais uma vez, parabéns, meu filho! “A dor da nossa distância forçada vai estar sempre comigo”, para citar Bráulia Ribeiro, digo expressando a minha dor e saudade impostas pela separação física. “O SENHOR te abençoe e te guarde” (Nm 6.24), digo abençoando-o! Sim, o SENHOR abençoe e guarde você sempre!

Hoje você completa 28 anos de vida. Que bom! Vá, meu filho, siga sua vida, errando como homem, pois todo homem erra, mas, a despeito disso, buscando sempre o caminho da lealdade e da retidão. Nunca se esqueça disso, meu filho. E que o Grande Arquiteto do Universo, que é Deus, amor e bondade, o conduza no seu caminho eterno, como diz a sua bendita Palavra!

Ab imo pectore, ab imo corde,


Seu pai.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Depressão




Comprei a revista Caras, edição 1.101, por causa da chamada de capa para a entrevista do padre Marcelo Rossi, sobre a depressão de que se recuperou. Li a entrevista, mas não gostei, por julgá-la superficial. Penso que deveria ter sido mais aprofundado o tratamento da questão, mas, tudo bem. Valeu a pena.

Fiquei sabendo, contudo, que Marcelo Rossi, certamente tal qual pensam muitos outros, não acreditava em depressão. “Achava que era frescura. Não é”, disse ele. É verdade, não é frescura. É enfermidade mesmo, digo eu. Sei disso porque já tive depressão. Aliás, tive, não: eu tenho. Luto diariamente com a depressão, para não me deixar dominar. Tenho consciência disso.

É raro o dia em que não amanheço deprimido. Acordo, quase todas as manhãs, com a terrível sensação de que o mundo desaba sobre mim. Procuro reagir, sempre e imediatamente, mas é terrível. Quem passa por isso como eu passo sabe como é a coisa e, por conseguinte, sentindo o que sinto, entende na real dimensão o que estou falando. Fora disso, só psicólogos e psiquiatras.

Fiz, contudo, um pacto comigo mesmo: não duvidar da enfermidade e jamais me abandonar e deixar dominar. Não é autossugestão ou coisa que o valha, não: é a responsabilidade comigo mesmo. Cheguei a tomar remédio controlado durante alguns meses para sair da crise e me recuperar, em 2010 ou 2011, e saí. Saí da crise, é verdade, mas a recidiva, como já disse, me ameaça cotidianamente.

O cardiologista – que me receitou o antidepressivo e tirou-me da crise – recomendou-me procurar posteriormente tratamento psicológico, o que não fiz. Hoje não tomo antidepressivo. Tomo a medicação cardiológica e procuro viver normalmente, seguindo a orientação do meu médico, embora não o faça em tudo, uma vez que não me submeti ao tratamento psicológico, como me orientou que me submetesse. Levo, todavia, vida normal (se é que se pode chamar isso de normal).

Se você tem depressão, cuide de sua vida, porque a coisa é seria. Não descuide. Quem duvida ou pensa que depressão é frescura que vá para o inferno, por mais pesado que isso possa parecer. Não estou nem aí. Que se dane! Como diz o ditado, quem calça o sapato é que sabe onde aperta. Não suporto gente metida a besta, embora o mundo, por certo, desde que é mundo, esteja repleto dos tais.