Escreva o que lhe der na telha, mas a palavra escrita não é mais sua. Certa vez, em 2010 ou 2011, no auge da depressão que me foi causada pela cardiopatia, meu médico, o cardiologista César Antonio Rodriguez Montes, me recomendou que, além de tomar os medicamentos, me dedicasse a fazer as coisas de que mais gostasse, o que mais me desse prazer. E aí, para minha alegria, ele disse: “Gosta de escrever, escreva. Continue escrevendo, que vai lhe fazer bem.” Saí da depressão, graças a Deus, e nunca me esqueci disso.
Nunca fui remunerado para escrever crônicas. Escrevo crônicas quase todos os dias, mas nunca fui remunerado para isso. Vivo do que escrevo, mas do que escrevo como advogado desde quando, aprovado no exame da Ordem dos Advogados do Brasil, recebi minha carteira de advogado, há quase 22 anos, em 2003. Faz mister, aliás, dizer que antes já vivia do que escrevia como servidor público desde que assumi o cargo de assessor técnico do Gabinete do Prefeito, na Prefeitura Municipal de Xinguara, em 1984, e tornei-me o responsável pela correspondência oficial.
Sempre escrevi por obrigação e necessidade, mas também por prazer. Comecei ainda bem jovem minha relação de sobrevivência com a palavra. Desde bem antes de ser advogado. E, uma vez advogado, essa relação se tornou ainda mais acentuada. O advogado, voluntária ou involuntariamente, é um profissional da palavra. Além de falar, tem de escrever. E escrever muito. Independentemente de gostar ou não de literatura. Dizia (e deixou escrito) Eliasar Rosa: “O advogado, trabalhando, ou escreve, ou fala.” E, ainda, com outras palavras: “Advogado, se não fala, escreve.”
Sigo, com prazer, a receita do médico: escrevo por prazer. Aliás, tenho um livro de crônicas, já prefaciado, cujo título explica essa relação de sobrevivência: De pé por causa da palavra. E, para quem não sabe, eu pago assinatura para ter meu site de escritor no Recanto das Letras. A versão gratuita, sem assinatura, não oferece os recursos de configuração avançada, como, por exemplo, negrito, itálico, e assim por diante. Assim, de certa forma, eu pago para escrever lá. Não porque seja necessário, mas porque eu gosto. É, para a posteridade, o que possuo. Deixarei como meu legado.
Aliás, por falar que é o que possuo, lembrei-me do bilhete de Jorge da Silva, o falso suicida do romance A viuvinha, de José de Alencar: “Peço a quem achar o meu corpo o faça enterrar imediatamente, a fim de poupar à minha mulher e aos meus amigos esse horrível espetáculo. Para isso achará na minha carteira o dinheiro que possuo.” Jorge, como sabe quem leu o romance, voltaria, anos depois e muito bem vivo, para os braços de Carolina, a viuvinha linda, que (ainda bem) jamais deixara de amar o marido.
Para
concluir, recorro à mensagem da qual tirei o título da crônica: “Escreva até que a palavra se complete. Apague, se
quiser. Mas, se for usar a borracha, peça licença, porque a palavra escrita não
é mais sua. O traçado já faz parte do sonho de muita gente”, diz a mensagem de
19 de novembro do Calendário filosófico:
para viver melhor, de Gabriel Chalita, livro que, como sabem meus leitores,
gosto de citar. Agradando aqui, desagradando ali, eu escrevo. Escrevo o que me
dá na telha.
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