quinta-feira, 16 de abril de 2026

O mister e o diuturnamente

 

Muitos pronunciam erradamente a palavra portuguesa "mister", confundindo-a com a palavra inglesa "mister". São línguas diferentes, significados diferentes e, claro, pronúncias diferentes. Em português, a palavra é oxítona terminada em “er”. Pronuncia-se como se tivesse um acento agudo na letra “é”. Rima com “colher”, e tem vários significados, como, por exemplo e não necessariamente nesta ordem, ocupação, ofício, profissão, incumbência, serviço, necessidade. Em inglês, “mister” é paroxítona, como se tivesse um acento agudo no “i”. A pronúncia parece com a da palavra portuguesa “mista”. E significa “senhor”. Quanta diferença, não é mesmo? Pois é!

 

Não existe estatística sobre esse erro de pronúncia, mas sua incidência é muito grande. A maioria das pessoas que conheço comete esse erro grosseiro de prosódia. Comete essa silabada, espécie do gênero cacoepia. Ouvir isso me dá dor nos ouvidos. É tanto que, às vezes, quando a intimidade me permite, eu digo à pessoa que a pronúncia correta é oxítona. O problema é que muitos, infelizmente, não sabem o que é oxítona, paroxítona e proparoxítona. E, assim, para fugir desse problema, digo logo que a pronúncia correta de “mister” rima com “colher”. Alguns aprendem. Outros não aprendem e, dias depois, estarão prenunciando erradamente de novo.

 

O brasileiro é naturalmente chegado a essa pronúncia à inglesa, mas, independentemente dessa falsa influência do inglês, várias pessoas têm, não sei por que razão, a tendência de evitar a pronúncia oxítona e, em alguns casos, a paroxítona de algumas palavras. São muitos os casos em que isso ocorre, mas, além da já citada palavra “mister”, vou citar aqui mais três: as palavras “mercancia”, “rubrica” e “Dario”. Aliás, isso me lembra uma professora de Direito que tive, na Universidade Federal do Pará. “Mercancia” rima com “melancia”, mas ela pronunciava “mercância”, fazendo rimar com “importância”. E eu, é claro, ficava irritado. Nunca a corrigi, evidentemente, mas cheguei a comentar com alguns colegas mais chegados.

 

“Rubrica”, que não tem acento gráfico, é uma palavra paroxítona, como se tivesse acento agudo no “i”, rimando com “pratica”, a terceira pessoa do presente do indicativo do verbo “praticar”. Muitos, porém, talvez a maioria das pessoas, a pronunciam erradamente, como se tivesse acento agudo no “u”. Erro semelhante acontece com a pronúncia do nome próprio “Dario”. A pronúncia correta é rimando com “rio”, mas um sem-número de pessoas a pronunciam como se tivesse acento agudo no “a”, fazendo-a rimar com “ovário”. Está errado, leitor! Só não se pronuncia rimando com “rio”, quando no registro da pessoa tiver sido posto um acento agudo no “a”: Dário, Dária.

 

Por fim, para encerrar nosso bate-papo gramatical de hoje, nesta crônica talvez sem gosto e sem graça, falo do adjetivo “diuturno” e do advérbio de modo “diuturnamente”. Lembro, como fiz lá no início, que não existe estatística sobre isso, mas é grande o número de pessoas que não sabem o significado dessas palavras e, por conseguinte, as empregam erradamente, pensando que “diuturno” significa “diário” e “diuturnamente” significa “diariamente”. Não, não significam isso! Diuturno é ininterrupto, o que dura muito tempo, o que tem longa duração. E diuturnamente, por sua vez, é o mesmo que ininterruptamente, continuamente. E assim por diante.

 


segunda-feira, 13 de abril de 2026

Escreva até que a palavra se complete

 

Escreva o que lhe der na telha, mas a palavra escrita não é mais sua. Certa vez, em 2010 ou 2011, no auge da depressão que me foi causada pela cardiopatia, meu médico, o cardiologista César Antonio Rodriguez Montes, me recomendou que, além de tomar os medicamentos, me dedicasse a fazer as coisas de que mais gostasse, o que mais me desse prazer. E aí, para minha alegria, ele disse: “Gosta de escrever, escreva. Continue escrevendo, que vai lhe fazer bem.” Saí da depressão, graças a Deus, e nunca me esqueci disso. 

Nunca fui remunerado para escrever crônicas. Escrevo crônicas quase todos os dias, mas nunca fui remunerado para isso. Vivo do que escrevo, mas do que escrevo como advogado desde quando, aprovado no exame da Ordem dos Advogados do Brasil, recebi minha carteira de advogado, há quase 22 anos, em 2003. Faz mister, aliás, dizer que antes já vivia do que escrevia como servidor público desde que assumi o cargo de assessor técnico do Gabinete do Prefeito, na Prefeitura Municipal de Xinguara, em 1984, e tornei-me o responsável pela correspondência oficial. 

Sempre escrevi por obrigação e necessidade, mas também por prazer. Comecei ainda bem jovem minha relação de sobrevivência com a palavra. Desde bem antes de ser advogado. E, uma vez advogado, essa relação se tornou ainda mais acentuada. O advogado, voluntária ou involuntariamente, é um profissional da palavra. Além de falar, tem de escrever. E escrever muito. Independentemente de gostar ou não de literatura. Dizia (e deixou escrito) Eliasar Rosa: “O advogado, trabalhando, ou escreve, ou fala.” E, ainda, com outras palavras: “Advogado, se não fala, escreve.” 

Sigo, com prazer, a receita do médico: escrevo por prazer. Aliás, tenho um livro de crônicas, já prefaciado, cujo título explica essa relação de sobrevivência: De pé por causa da palavra. E, para quem não sabe, eu pago assinatura para ter meu site de escritor no Recanto das Letras. A versão gratuita, sem assinatura, não oferece os recursos de configuração avançada, como, por exemplo, negrito, itálico, e assim por diante. Assim, de certa forma, eu pago para escrever lá. Não porque seja necessário, mas porque eu gosto. É, para a posteridade, o que possuo. Deixarei como meu legado. 

Aliás, por falar que é o que possuo, lembrei-me do bilhete de Jorge da Silva, o falso suicida do romance A viuvinha, de José de Alencar: “Peço a quem achar o meu corpo o faça enterrar imediatamente, a fim de poupar à minha mulher e aos meus amigos esse horrível espetáculo. Para isso achará na minha carteira o dinheiro que possuo.” Jorge, como sabe quem leu o romance, voltaria, anos depois e muito bem vivo, para os braços de Carolina, a viuvinha linda, que (ainda bem) jamais deixara de amar o marido. 

Para concluir, recorro à mensagem da qual tirei o título da crônica: “Escreva até que a palavra se complete. Apague, se quiser. Mas, se for usar a borracha, peça licença, porque a palavra escrita não é mais sua. O traçado já faz parte do sonho de muita gente”, diz a mensagem de 19 de novembro do Calendário filosófico: para viver melhor, de Gabriel Chalita, livro que, como sabem meus leitores, gosto de citar. Agradando aqui, desagradando ali, eu escrevo. Escrevo o que me dá na telha.

 


terça-feira, 7 de abril de 2026

Não é o Irã: o mundo está em perigo

 

Trump teve a prepotência, a maldita arrogância, a loucura de ameaçar de morte um país inteiro, o Irã, e marcar, inclusivamente, o horário para isso: hoje, à noite, às 21 horas, horário de Brasília, segundo lemos. Na sua loucura, teve, conforme se vê na mídia, a audácia de, com a mesma tranquilidade de quem diz, por exemplo, que vai a um piquenique na praia, dizer que “uma civilização inteira morrerá hoje”. Que absurdo! Maldita prepotência! Que quer dizer isso? Isso quer dizer que o criminoso insano ameaça usar bomba nuclear contra o Irã. É isso, sem tirar nem pôr. Mas é algo inconcebível, inaceitável, para o século XXI, não obstante todos que deveriam falar e reagir estejam covardemente calados e quietos.


Não é de hoje que, enquanto todos se fazem de mortos em esfera global, os Estados Unidos da América se põem como a polícia do mundo. E, o que é pior, não uma polícia ordeira (que, mesmo assim, seria inadmissível diante dos princípios fundamentais do Direito Internacional), mas uma polícia desordeira e criminosa, que, a seu bel-prazer, invade outras nações e sequestra o governante, quando não o assassina. Isso é inadmissível, pois fere de morte princípios basilares e inafastáveis do Direito Internacional, como, por exemplo, o da autodeterminação dos povos, o da não intervenção e o da igualdade entre os Estados.


O que me assusta, porém, e me deixa perplexo de indignação não é a prepotência de Trump, que ultrapassa o razoável e mergulha na imensidão da loucura, é o silêncio de todos, o qual, na minha opinião, traduz a concordância, quando não a covardia. Não concordo com o regime iraniano e, por isso mesmo, não o defendo, mas não é sobre isso que se está a tratar. É sobre a soberania e autodeterminação dos povos, a não intervenção, a igualdade entre as nações e a defesa da paz mundial. O mundo não pode se calar diante dessa ameaça de barbárie e genocídio do louco de plantão dos Estados Unidos da América, pois não é o Irã que está em perigo, é o mundo.


É preciso deter, para o bem da humanidade e enquanto há tempo, a prepotência, a arrogância, a loucura ou seja lá qual for o nome que se queira dar à maldita e, por isso mesmo, inaceitável necropolítica externa dos Estados Unidos da América. O mundo inteiro está a correr perigo. E não é um perigo qualquer, é o perigo de morrer. São inefáveis – ou seja, não dá para exprimir com palavras – os danos que o emprego de bombas nucleares, onde quer seja, causaria ao mundo. É muito sério e inadmissível isso! Mas todos estão calados! Por quê? A troco de que essa neutralidade? Até quando?


No plano interno do Brasil, as mais recentes ações criminosas de Flávio Bolsonaro, que, na maior infâmia que um brasileiro pode cometer nos dias de hoje, foi oferecer o Brasil e suas riquezas (leia-se, em primeiro lugar, as terras-raras) aos Estados Unidos da América. Infâmia, solene infâmia! Merecia, como merece, pela sua infame traição à pátria, ser processado, cassado, condenado e preso, a bem do Estado Democrático de Direito, a bem do Brasil. E o infeliz cara de pau teve, além disso, a audácia de falar mal e tentar desacreditar o sistema eleitoral brasileiro perante estrangeiros, incitando-os contra os interesses da pátria. Não pode ficar impune.


Para concluir, Joaquim Nabuco, o grande escritor de Minha formação, diz que a intolerância é uma retração intelectual que produz a hipertrofia ingênua da personalidade. Eu diria que é a hipertrofia maldosa ou, quando não, ingênua. Penso que a maioria dos intolerantes são maus em si e por si mesmos. Faço, todavia, a ressalva, tal qual fez o apóstolo Paulo em relação à ira. Nem toda intolerância, pois, é maldade: é preciso ser intolerante, no mais profundo significado da palavra, com a tortura, os torturadores e quem a eles faz apologia, bem como com o neonazismo, os neonazistas, os infames traidores da pátria e qualquer necropolítica, interna ou externa. Não à morte, sim à vida!