domingo, 20 de dezembro de 2009

De fogo é teu coração

Apreciador dos clássicos gregos, tenho mais de uma tradução de comédias e tragédias gregas como, por exemplo, da tragédia Antígona, de Sófocles, assim como tenho várias versões e traduções da Bíblia Sagrada. É agradável e muito proveitoso, mormente quando não se tem conhecimento da língua original, comparar, fundado no bom conhecimento do Português, as muitas versões e traduções de determinada obra. Traduttore, traditore, o tradutor é muitas vezes um traidor, que deturpa, voluntária ou involuntariamente, o pensamento do autor.

Aqui um exemplo. Fica, a meu ver, bem demonstrada essa importância quando comparamos a tradução da Antígona que foi feita por Donaldo Schüler com a tradução de Mário da Gama Kury, inquestionavelmente dois helenistas de peso. Um deles dois (ou até mesmo ambos) teria traído, de certo modo, o pensamento de Sófocles? Não sei. Talvez, sim; talvez, não. Qual das traduções é inteiramente fiel ou, em outras palavras, menos infiel ao original? Sei lá! Desnecessário dizer que somente a consulta ao texto original, por quem tenha sólido conhecimento do Grego, poderá responder a tais indagações com responsabilidade e segurança. Com a palavra, portanto, os helenistas, para que falem ex cathedra. Nem quero jamais ouvir o ne sutor ultra crepidam, de Apeles.

Não é meu objetivo aqui pôr ou retirar defeito desta ou daquela tradução. Quero tão somente ressaltar a importância de se conhecer, quando disponíveis, várias versões e traduções de um mesmo texto de língua estrangeira, dado o enriquecimento intelectual que isso nos traz, até porque, todos o sabemos, existem várias maneiras de se falar e escrever de forma escorreita determinada afirmação ou negação. Ambas as traduções referidas são boas e importantes. Posso afirmar, contudo, que, para mim, ressalvado o alto grau de subjetividade nessa apreciação se encerra, é mais linda e mais poética a tradução de Donaldo Schüler, não obstante a tradução de Mário da Gama Kury, que foi feita em 1970, já esteja na 15.ª edição pela Jorge Zahar Editor, do Rio de Janeiro.


À guisa de amostra, aí vai um trecho do tenso diálogo entre as irmãs Antígona e Ismene, nas duas traduções: Diz, a meu ver, com muita poesia, a tradução de Schüler: “De fogo é teu coração em atos que me gelam” – disse Ismene. “Fala, peço-te! Muito mais odiosa me serás calada. Declara tudo a todos” – dissera Antíngona (Antígona, 86-88). E, sobremaneira diferente, a de Gama Kury: “Não faças isso! Denuncia-os! Se calares, se não contares minhas intenções a todos, meu ódio contra ti será maior ainda!” – disse Antígona. “Ferve o teu coração pelo que faz gelar!” – respondeu Ismene (Antígona, 95-98).

Os três versos da tradução de Donaldo Schüler se transformaram em quatro, na tradução de Mário da Gama Kury. Quem deles foi inteiramente fiel, ou menos infiel, ao original? Sei lá! Não tive acesso ao original nem tenho o suficiente conhecimento de Grego para dizê-lo. Que o digam os doutos helenistas, com a autoridade que têm sobre o assunto. Contudo, que há diferença, há; isso ninguém pode objetivamente negar. E, demais disso, conquanto lá prevaleça a objetividade e aqui a subjetividade, a tradução de Schüler é mais linda, mais poética. “De fogo é teu coração em atos que me gelam” é mais poético e mais bonito, do que “ferve o teu coração pelo que faz gelar!”, da mesma forma que “muito mais odiosa me serás calada” é mais bonito, tem mais poesia do que “se calares, meu ódio contra ti será maior ainda”. Eu acho, mas – repito – aqui estamos em seara altamente subjetiva. Vale a pena (“paga pena”, como diria Machado de Assis) apreciar as duas e mais outras traduções.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

O macaco sem pelos e sua fêmea natural


Resolvi reler Como Tratar as Mulheres, de William Camus, traduzido do original Comment s’Accomoder des Femmes por C. Luz e publicado pela Editora Artenova S. A., a qual, salvo engano, deixou de existir. Comprei-o em maio de 1978 e li com avidez, recém-saído da adolescência, com exacerbada curiosidade sobre sexo. Depois o esqueci, por quase trinta anos, entre os muitos outros livros que possuo, acudindo-me somente agora a ideia da releitura. É muito agradável e altamente proveitoso, naturalmente com visão diferenciada pela formação universitária e a experiência de vida adquirida, reler agora os livros que li há lustros e décadas.

Como Tratar as Mulheres é uma obra interessante, que ensina a amar e admirar a mulher, muito embora uma leitura desavisada possa fazer parecer o contrário, por ser entremeado de rasgos espirituosos, sem embargo do resgate histórico-científico da evolução dos humanos ao longo dos tempos. É um livro sério, mas escrito de forma brincalhona, sem a sisudez.

São 199 páginas e seis capítulos, cada um deles começando com epígrafe e terminando, da mesma forma, com um pensamento filosófico. O primeiro tem como epígrafe o pensamento: “Estamos quase acordando quando sonhamos que estamos sonhando.” E termina com este, de Tristan Bernard: “Os otimistas e os pessimistas têm um defeito em comum: têm medo da verdade.” William Camus é, sem dúvida, um baita brincalhão que faz questão de registrar, expressa e solenemente, que não é misógino.

Começa a vivacidade já no primeiro parágrafo do primeiro capítulo, a que, com letras garrafais, deu o título de “Advertência”, onde ele diz solenemente: “Senhores, este livro é de vocês. Confiem-no a sua companheira e perderão imediatamente as vantagens que dele podem retirar.” Logo mais à frente, no mesmo capítulo, dispara: “O homem é simplesmente um macaco sem pelos, a mulher é a sua fêmea natural.” E, para não fechar diferentemente, no último parágrafo do último capítulo conclui de forma grave, mas sem abrir mão da ironia tão peculiar ao longo da obra: “Conscientes de nossas possibilidades evolutivas momentâneas, continuemos então a viver como macacos superiores; o mais difícil será persuadir nossa fêmea que ela é uma macaca.” É, de fato, um gozador!

Isso aqui, contudo, não é resenha: é uma crônica simplória com que busco homenagear as mulheres, expressando o carinho, respeito e admiração que sempre tive pela nossa fêmea natural. Quero também, como homenagem, declinar a principal razão da releitura. É que na bela crônica “Chris não está no Google”, meu amigo Guilherme José Purvin de Figueiredo, ao evocar episódio de 26 de março de 1977, no último parágrafo, faz sobre a moça a quem chama de “musa da esquerda na São Francisco”, uma afirmação que me lembrou algo dito no livro.

Guilherme Purvin diz, brincalhonamente: “Naquela manhã aprendi muita coisa, menos a dar um beijo na Chris. Na verdade, o Umberto, o Tatuí e o Marcelo também não. Azar o nosso, pois na reunião seguinte ela já namorava um alienado frequentador da Atlética. Resumindo: O quadro de Dom Pedro II, assinado por Benedito Calixto, está desaparecido. Assim como a Chris, que sequer aparece no Google. Esperava identificá-la como alguma pesquisadora gorda, descabelada e pretensiosa, com os dentes amarelos de nicotina, falando de Joyce e Proust. Deve ter se casado com algum boçal, saradão e de direita. Ou, quem sabe, com o Geraldo Vandré?”

A expressão “pesquisadora gorda”, de Purvin, lembrou-me o que disse alguém identificado no livro por William Camus apenas com as iniciais O. B.: “ A única vez que um homem se sente bem com um excesso de peso é quando o constata na mulher com a qual quase se casou.” Daí resolvi reler o livro. Registro, todavia, minha discordância desse observador citado por William Camus, pois há muitas gordinhas que são lindas ao extremo.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Marabá e o concerto



Embevecido, assisti, juntamente com a Câmelha e o Samuel, nosso filhinho de quatro anos, em meio a significativo número de outros expectadores, ao mavioso e apoteótico concerto da Orquestra Sinfônica do Theatro da Paz, realizado sábado, dia 12 de dezembro de 2009, na Praça Duque de Caxias, em frente ao Palacete “Augusto Dias”, sede da Câmara Municipal de Marabá. Foi a louvável e muito feliz iniciativa do Prof. Melquíades Justiano da Silva, Secretário Municipal de Cultura, que nos presenteou a todos com a vinda da orquestra pela primeira vez a Marabá, para dar início à programação natalina de 2009, com apresentação pública de clássico e riquíssimo concerto. O projeto “Pará Sinfônico – A Orquestra nos Municípios” chegou a Marabá.

Cheguei, involuntariamente, atrasado e não pude assistir à sinfonia O Guarani, obra imortal de Carlos Gomes, o paulista a quem o Pará, gentil e auspiciosamente, acolheu, em 1895, infelizmente já no fim da vida, fazendo-o diretor do Conservatório de Música do Pará, por ato de Lauro Sodré, então governador do Estado. Assisti, contudo, ao Bolero de Ravel e a outras obras memoráveis da arte musical, sem dúvida, de igual valor. Gostei. Achei o máximo. Como se diz na gíria: Arrasaram!


Interessante e digno de nota foi o gesto do maestro Enaldo Oliveira, que é doutor em Regência de Orquestra, quando se dirigiu à plateia, mais ou menos ao meio do concerto, para dizer do seu amor ao rio Tocantins, como filho da vizinha cidade de Tucuruí, e também para incentivar os presentes a desenvolverem a vocação para a música, pois a música, de forma gratificante, o levou a conhecer o mundo.

Marabá, que é berço de cultura poética a começar pelo nome, terra dos poetas Frederico Morbach, Aziz Mutran Filho e Ademir Braz, dentre tantos outros intelectuais ilustres, mas injustamente desamparados e esquecidos, há muito faz jus a iniciativas simples, mas de envergadura e valor inexprimível, como esta. É preciso, com acuidade, vontade bem-agradecida e firmeza de propósitos, sacudir o marasmo e rasgar o véu da inércia, quando não do descaso, que de forma funesta vêm, respectivamente, imobilizando instituições e encobrindo pessoas de nossa cidade.

É preciso valorizar o nosso intelectual, a nossa cultura, o nosso folclore, as nossas tradições, o nosso povo. Marabá, que já nasceu grande e rica, coberta de belezas naturais e com vocação inolvidável para o progresso, precisa disso!

Ao enlevo da sinfonia, povoaram-me a mente pessoas e amigos ilustres ligados à poesia, à musica e outras formas de cultura (alguns vivos, outros já falecidos), como além dos já citados, faço questão de nomear Guilherme José Purvin de Figueiredo, Luz Marina de Alcântara e Waldemar Henrique da Costa Pereira. Destes, os dois primeiros são meus amigos do mundo virtual (a Luz Marina, aliás, conheço pessoalmente desde 1981); o terceiro e último, é o maestro-símbolo paraense, de renome internacional, a quem não tive a oportunidade de conhecer.

Luz Marina é insigne educadora de artes e música, de Goiânia, Estado de Goiás, membro de academia de letras e artes, viva e galhardamente reconhecida pelo seu Estado; Guilherme Purvin, doutor em Direito pela Universidade de São Paulo e professor universitário, é o atual presidente do Instituto Brasileiro de Advocacia Pública (Ibap), sediado em São Paulo, e, como intelectual de refinado bom gosto, muito fala das músicas preferidas, artistas, discos e cedês, nas belas crônicas que escreve; Waldemar Henrique, falecido em 1995, foi intelectual paraense de primeira grandeza, membro de várias academias, maestro, escritor e compositor, dentre outras prendas, contado e decantado pelo mundo.

Dessas lembranças veio a decisão de reler o livro Waldemar Henrique: Só Deus Sabe Porque, posto imediatamente a engrossar o volume de obras que estou lendo (tenho o hábito, não sei se bom ou ruim, de ler vários livros ao mesmo tempo). O exemplar que possuo é da edição de luxo, comemorativa do 84º aniversário de Waldemar Henrique, publicada pela Fundação Cultural do Pará “Tancredo Neves”, em 1989, que comprei em 1990, li e agora estou relendo.

Para encerrar a crônica, estas palavras de Luís da Câmara Cascudo: “Waldemar, enquanto você estiver na terra, falta um anjo no céu!”. Este é o Pará que eu amo e deve ser divulgado: Pará sinfônico, Pará cultural, Pará do bem!

domingo, 6 de dezembro de 2009

A Desejada



Terminei de ler Odes de Anacreonte, na tradução de Almeida Cousin. Li com a devida atenção e sem abandonar inconclusa a leitura, como, impulsivamente, fizera em outras vezes. Li também A Greve do Sexo e A Revolução das Mulheres, na tradução de Mário da Gama Kury. São obras clássicas gregas. A primeira é composta de poemas (as odes gregas eram poesia para ser cantada) cuja autoria atribui-se a Anacreonte, não obstante essa autoria seja muito discutida entre os estudiosos; as duas últimas são comédias e foram escritas pelo comediógrafo Aristófanes, quatro séculos antes de Cristo.

São obras que registram – de forma crítica, linda e muito sábia – a filosofia, a mitologia, os costumes e as tradições do provo grego, assuntos pelos quais sempre nutri verdadeira paixão. A Greve do Sexo e A Revolução das Mulheres têm algumas passagens de linguagem erótica e, a depender da tradução e da visão pudibunda de quem as lê, podem até ser consideradas comédias obscenas, muito embora de obscenidade não se trate, pois combatem, com beleza singular e de forma sobremodo contundente, o preconceito contra a mulher, a guerra, a malversação do dinheiro público, a transformação do Estado em cabides de emprego, dentre outras coisas do gênero.


À guisa de exemplo (pois esse texto não é resenha), aí vai um pouco da fala de uma das personagens de A Greve do Sexo, no combate ao preconceito contra a mulher: “Vocês não crêem que eu possa dar bons conselhos à cidade? Não é crime ter nascido mulher, e o sexo não me impede de ter ideias melhores que as que andam por aí.”

Odes de Anacreonte canta, além de muitos episódios da mitologia grega, o amor sensual casto e o pervertido, a celebração da beleza e da graça feminina, o vinho e assim por diante. De rara beleza e significado mitológico, por exemplo, é a ode XX da tradução de Almeida Cousin, intitulada “A Desejada”.

Essa ode fala do abuso sexual de que foi vítima Progne, filha de Pândion, rei de Atenas, perpetrado pelo cunhado dela, Tereu, rei da Trácia e marido de Filomena, o qual, depois de abusar da cunhada, impiedosamente a encarcerou e lhe cortou a língua, para encobrir o nefando crime que cometera. Mas não trata somente disso. Expressa e canta a admiração apaixonada do poeta pela mulher a quem deseja e homenageia.


Eis o belo poema, pois vale a pena transcrever: “Em Frígia, a filha de Tântalo,/ Niobe, petrificou-se!/ E Progne, a filha de Pândion/ Em nova andorinha alou-se!/ Ah! eu, se poder tivera/ De ter mil formas e faces,/ Quisera ser teu espelho,/ A fim de que tu me olhasses!/ Quisera ser teu vestido/ A fim de que me trouxesses;/ Quisera ser água pura,/ Que o corpo a lavar lhe desses.../ Quisera tornar-me arômato,/ A fim de que mulher, te ungisse.../ Que eu fosse o véu que os teus seios,/ Cioso, a apertar, cobrisse.../ De pérola em teu pescoço,/ Que eu fosse o colar que usasse.../ Que eu fosse a tua sandália,/ E, ao menos, tu me pisasses!...”

O poema, no entanto, somente será bem entendido e apreciado por quem conhecer o significado mitológico dos versos “Em Frígia, a filha de Tântalo,/ Niobe, petrificou-se!/ E Progne, a filha de Pândion/ Em nova andorinha alou-se!”. E, conquanto o saiba e quisesse explicá-lo, deixo de fazê-lo, para não tornar a crônica muito longa. Fica, sem maldade da minha parte, para curiosidade do leitor que não o conheça. Outro dia. Quem sabe?

domingo, 15 de novembro de 2009

A releitura de O Rubaiyat



Acabei de reler O Rubaiyat, de Omar Khayyam, na tradução de Manuel Bandeira, obra que, dentre outras, recebi como brinde da Ediouro, em 1988 ou 1989, não sei ao certo. Na realidade, a releitura não foi de toda a obra, foi apenas da parte final, pois antes, por várias vezes, iniciara e abandonara a leitura. Desta vez, não: li a obra toda, que tem 170 pequenos poemas, todos eles, curiosamente, sem título.

São poemas filosóficos. Aliás, como ensina Manuel Bandeira, rubáyyát é o plural de rubay, que, em persa, quer dizer quadra. É gostoso de ler pelo cunho clássico de sabedoria; os versos da tradução de Bandeira, porém, não têm rima. Indisposição ou uma vontade mal-agradecida me impede momentaneamente de fazer uma análise e comentários mais profundos.

É um livro indicado pela própria editora para os cursos de Filosofia, Teologia, Sociologia, Letras, Comunicação e História e, do princípio ao fim, se caracteriza pelo agnosticismo, imediatismo e hedonismo intransigentes do poeta, que, em síntese, advoga o desapego ao saber, às coisas materiais (espirituais também), regado a bom vinho degustado na companhia de bonitas mulheres.

No poema 150, por exemplo, que é composto de duas quadras, um registro bem típico da filosofia agnóstica: “Aprendi muito, esqueci muito./ Também, e por vontade própria./ Em minha mente cada coisa/ Estava sempre em seu lugar./ Não cheguei à paz senão quando/ Tudo rejeitei com desprezo./ Compreendera enfim que é impossível/ Tanto afirmar como negar.”

E, no poema 164, esta amostra eloquente de agnosticismo mesclado de hedonismo antirreligioso: “Pobre homem, nunca saberás/ Nada; jamais explicarás/ Um só dos mistérios do mundo./ E já que as religiões prometem/ Depois da morte o Paraíso,/ Busca tu mesmo criar um/ Para teu gozo aqui na Terra,/ Pois o outro talvez não exista.”

Por fim, para mostrar a diversidade do seu pensamento, o rubay 165: “Lâmpadas que se apagam, esperanças/ Que se acendem: aurora./ Lâmpadas que se acendem, esperanças/ Que se apagaram: noite.”

Isso aí, todavia, é apenas pequena amostra do pensamento de Omar Khayyam, que, paradoxalmente, é a um só tempo lúcido e louco, altruísta e egoísta, dentre outras de suas idiossincrasias que, a meu ver, se negam e contradizem mutuamente. Paga a pena ler e reler. É clássico e deslumbrante! Eu, pelo menos, assim o vejo. Gostei! Sou advogado e prezo o contraditório, o paradoxo, as aporias.

Concluído O Rubaiyat, o próximo será Odes de Anacreonte, na tradução de Almeida Cousin, outro clássico que, há muitos anos, recebi como brinde da Ediouro e cuja leitura iniciei e parei várias vezes. Na mesma fila de leituras iniciadas e abandonadas, sem dó nem sobrosso nem justificativa que não a minha impulsividade, estão Almoço Nu, de William S. Burroughs, e Parte de Minha Alma, de Winnie Mandella.

sábado, 14 de novembro de 2009

A cor do sangue, a cor da vida, a cor da paixão



Peguei uma carona com Moacyr Scliar, na leitura cotidiana do site da Academia Brasileira de Letras e, para dar título a minha crônica, tirei do seu conto “A guerra das rosas” as expressões “a cor do sangue, a cor da vida, a cor da paixão”. Sangue é vida, vida é paixão e paixão é vida, como vida também é sangue. Pelo menos eu penso assim, pois, sonhador insensato talvez, sempre ponho, apaixonadamente, alma e coração em tudo o que faço e que vivo.

Talvez porque meu conceito de paixão seja diferente, gosto muito dessa palavra, de seus cognatos e derivados. Tenho paixão por muitas coisas, pessoas, lugares e instituições. Paixão interesseira? Às vezes sim, às vezes não. Correspondida? Às vezes sim, às vezes não. Paixão, na boa acepção, como é do meu costume dizer, se é que existe a acepção má, pois o mal está mesmo é na mente e no coração das pessoas.

Faço, a propósito, uma citação de Umberto Eco, tirada de seu artigo “A arte perdida da caligrafia”, que li na versão eletrônica da Revista Cultura, edição 28 (novembro de 2009), onde ele diz belamente: “As pessoas não viajam mais a cavalo, mas algumas fazem aulas de equitação; existem iates motorizados, mas muita gente é tão devotada à arte de velejar quanto os fenícios de três mil anos atrás; há túneis e ferrovias, mas muitos ainda apreciam caminhar a pé por passagens alpinas; há pessoas que colecionam selos na era do e-mail; e exércitos vão à guerra com rifles Kalashnikovs, mas também organizamos pacíficos torneios de esgrima.”

Isso aí tudo é, para mim, exemplo de paixão. Também de vida, de sangue e de morte. Pode haver paixão mais intensa que a que leva os homens à guerra? Pode haver mais sangue (acompanhado da morte, porque derramado, infelizmente) que na guerra? É má a paixão que faz guerrear? Haveria guerra justa? Sei lá! Depende do contexto e da perspectiva, pois, como já se disse, com sabedoria, “o mesmo cubo pode servir de pretexto para efeitos de sombra e de luz”.


Sou apaixonado pelo meu passado, pelos meus amigos e amigas, pelas coisas boas e belas da vida, dentre as quais sempre faço questão de ressaltar a mulher, a fêmea (com profundo respeito e carinho o digo). Aliás, ao pudibundo ou à pudibunda, que cora ao ler o que escrevo ou ao me ouvir dizer “fêmea”, lembro que Jesus Cristo, sem ser pecador e, muito menos ainda, o devasso presunçoso que alguém pode julgar que eu seja, disse nos Evangelhos de Mateus e de Lucas, a respeito do homem e da mulher, que Deus ou o Criador “os fez macho e fêmea”.


Tenho paixão pelo passado, meu e dos meus amigos, sem negligenciar o presente, o que, com efeito, me faz sofrer diante de frases como esta, recebida por e-mail, de uma amiga a quem sempre admirei muito: “O casamento acabou e por isso cada um deu o rumo que quis dar para sua vida.” Ele se casou novamente. Ela continua solteira, certamente por opção, pois é muito linda, elegante, inteligente, bem-educada.

Situações e decisões como essa devem ser respeitadas, notadamente por quem se diz amigo, mas não deixam de me fazer sofrer, porque me provam cruelmente a falibilidade do homem e dos seus projetos. Pode haver projeto mais lindo e mais auspicioso do que o casamento? Não, não pode. Mas, ainda assim, todos os dias casamentos se acabam e esperanças são malogradas! Por que as coisas são assim? Compreendo, mas não me conformo: nós, os humanos, a despeito da racionalidade (seria por causa dela?), somos tristemente voláteis!

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Nada de nada, pela palavra nada



Conquanto não tenha sido antes, mas ainda assim a propósito da passagem do Dia de Finados, trago a lume mais esta insignificância literária. As expressões “nada de nada, pela palavra nada” foram propositadamente tomadas do primeiro capítulo do livro As intermitências da morte, de José Saramago, publicado em 2005, pela Companhia das Letras, que li na internet (ah, como gostaria de já escrever internete!).

Acabo de reler a tragédia grega Antígona, de Sófocles, na tradução de Donaldo Schüler, publicada pela L&PM Editores e quis fazer uma brincadeira, pois as duas obras, As intermitências da morte e Antígona, são diferentes entre si, não só no tempo e no espaço, muito embora, por paradoxal que pareça, tenham muitos matizes em comum, coisa que não vem ao caso discutir aqui. Naquela, a intrigante ausência da morte; nesta, sua presença marcante como fruto venenoso da tirania, opressão e desatinos de Creonte, mais um usurpador do poder de Tebas.

A antiga civilização grega é apaixonante e seus clássicos são imbatíveis em tudo. Sófocles viveu de 495 a 406 antes de Cristo, mas suas tragédias, que foram citadas várias vezes por Aristóteles na Arte Retórica e na Arte Poética, por exemplo, são de atualidade a toda a prova, como se o poeta fosse nosso contemporâneo.

Sua perenidade evoca, por contraste, a efemeridade e a perecibilidade de coisas, pessoas e instituições, que deveras me incomodam. Sempre vejo com pesar o fechamento de uma casa comercial ou de outra entidade qualquer, a solução de continuidade de um empreendimento, a ruptura de um relacionamento, o malogro de esperanças. Apego-me apaixonada e obstinadamente a pessoas, coisas, lugares e instituições.

A morte, por significar separação e implicar o desaparecimento físico do ser humano, é a mais terrível das coisas terríveis. Como se ouve dizer desde a mais tenra idade, para a morte não tem jeito. Dia de Finados relembra morte e sepultamento, dor e saudade. Dar sepultura aos mortos é do direito natural e, derivado deste, do direito positivo, com implicações de caráter religioso e sociológico que se confundem com o existir do próprio homem, no oceano dos tempos.

Deixar os mortos insepultos seria antinatural, até pelas consequências mais diversas que sobreviriam aos vivos. Na mitologia grega, Creonte, o tirano de Tebas, por não permitir, à revelia do direito e da lei, o enterro do sobrinho Polínice, atraiu para si desgraças que não imaginava, dando causa à morte da sobrinha Antígona, do filho Hêmon e da mulher, Eurídice.

Elementar. O mau governante, em todos os tempos, causa males imensuráveis aos governados. Tirésias bem o diz a Creonte: “Os males desta cidade procedem de tua cabeça” (Antígona, 1015). Creonte, conquanto sabiamente advertido por Antígona, Hêmon e Tirésias, não se demoveu dos maus intentos, porque todo mau governante é turrão. “A arrogância atrai a loucura” (Antígona, 1028). Com efeito, Creonte sorveu a taça da amargura, desvalido e prisioneiro para sempre dos próprios desatinos: “Eu não sou nada, sou menos que ninguém” (Antígona, 1324-1325).

O estarrecedor de tudo isso, em pleno século XXI depois de Cristo, é que não se trata apenas de ficção e mitologia. Nos dias de hoje, como nos dias do passado recente, ou remoto, comumente faltam Tirésias, Antígonas e que tais, mas sobram Creontes nas mais variadas versões.