sábado, 13 de abril de 2013

Embolar castanha



Vivi, não foi toda, mas quase toda a minha infância, a adolescência e grande parte da juventude na zona rural, em meio à floresta com as mais variadas espécies de animais e plantas. Foram – jamais ocultarei isto – anos de uma vida de parcos recursos, marcada pelas necessidades materiais de toda a sorte, mas, a despeito disso, uma vida feliz, regada de carinhos e cuidados paternos. 

Meus pais, conquanto fossem muito pobres, eram amorosos e muito ciosos de suas obrigações. Isso nos dava, a mim e a meus irmãos, a sensação de segurança e felicidade. É natural, pois, que eu tenha, malgrado aquele estado de pobreza, boas recordações dos tempos da infância, adolescência e juventude, que me acompanharão até a sepultura. Terei sempre muito gosto nisso. 

Pobres, contudo, bem nutridos: a alimentação era farta e até variada. Meu pai – já há muito só de saudosa lembrança – praticava a agricultura de subsistência, pescava e caçava para o sustento da família, composta de mulher e sete filhos. A dieta era rica, à base de produtos da lavra: arroz, feijão, fava, milho, batatas, inhame, mandioca, farinha e frutos silvestres, como cupuaçu, castanha-do-pará, bacaba e açaí. Também continha a carne de muitos animais da floresta: veado, paca, jabuti, mutum, jacu e nambus de várias espécies e tamanhos. Não raro, também o peixe. 

O programa Globo Repórter desta sexta-feira fez evocar muitas lembranças, dentre as quais a da colheita da castanha-do-pará (que, para nós todos da região, sempre foi apenas castanha), em que sobressaíam dois trabalhadores: o castanheiro e o tropeiro. Daí vem o título da crônica, do trabalho do castanheiro. Meu pai foi castanheiro e tropeiro, e eu, como filho primogênito, o auxiliava, embora facultativamente, em ambos os misteres. 

A embolação, ato ou efeito de embolar, era uma das fases da colheita, realizada pelo castanheiro, cujas tarefas nessa cadeia produtiva consistiam de, primeiro, embolar e, depois, cortar a castanha da colocação posta sob sua responsabilidade pelo dono do castanhal, para que fosse transportada em lombo de burros, pelo tropeiro, até o barracão-sede do castanhal, de onde era levada para a cidade, geralmente de barco, o chamado batelão, e depois exportada até para a Europa. 

Colocação era uma divisão territorial do castanhal, entregue a um castanheiro na época da colheita. Embolar a castanha era juntar os ouriços em grande montes, utilizando um paneiro às costas e, às mãos, um pé de bode (antes do Acordo Ortográfico de 1990 – registro por amor à gramática – era pé-de-bode). O paneiro era feito de cipó-timbó, ao passo que o pé de bode era um tronco fino de uma árvore qualquer, como o café-bravo, por exemplo, rachado em cruz e amarrado com embira, com qual, de pé, o castanheiro apanhava o ouriço no chão e o jogava no paneiro posto às costas.  

No barracão, a castanha, antes de ser transportada para Marabá ou para outra cidade qualquer da região, era bem lavada, o que consistia em encher o paneiro de castanha e submergi-lo na água do rio ou igarapé e sacudi-lo dentro da água, como se fora uma bateia, fazendo que aflorassem à superfície da água os umbigos e as amêndoas podres de castanha porventura existentes. Eu também, embora mais brincando do que trabalhando, fazia esse serviço na companhia do meu pai.   

Bons tempos aqueles! Ah, quanta saudade, não da vida de pobreza, mas do contato puro e sublime com a natureza e da presença inesquecível do meu pai! É impossível para mim escrever isso sem que me venham as lágrimas. Meu pai, meu herói sempre, saudade eterna enquanto eu estiver sobre a terra! João Belizário era o seu nome, meu nome simbólico na Maçonaria. Uf!... O coração está quase a me sair pela boca. Vou parar por aqui.

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