quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Fim ou final? Depende...


A imprensa, mas não somente ela, confunde-se no emprego das palavras fim e final, e quase sempre emprega erradamente a palavra final, pondo-a no lugar de fim. Na linguagem oral também se verifica a mesma confusão. As pessoas (muitas delas até muito críticas) gostam de falar ou escrever final de semana, quando deveriam dizer ou escrever fim de semana; final do dia por fim do dia, e coisas similares. Pois bem, seu moço. Acontece frequentemente, mas não deveria acontecer. Nem tudo é normal por acontecer com muita frequência.

Trata-se, no caso, de uma simples questão morfológica. O problema é que a maioria dos falantes de hoje (e escreventes também) não se preocupa com morfologia nem com sintaxe nem com coisa alguma da língua e sai por aí escrevendo e falando erradamente, por mero desleixo. O Português suficiente para falar e escrever bem consta dos programas do ensino fundamental e do ensino médio. Quem não aprendeu aí dificilmente aprenderá no ensino superior, só se fizer um bom curso de licenciatura em Letras. E muitos nem assim, uma vez que o aprendizado depende muito da pessoa, não somente do programa estudado. Conheço licenciados em Letras quem não sabem Português.

Isso me lembra o advogado e gramático de nomeada Napoleão Mendes de Almeida. Ele dizia (e nisto concordo plenamente com ele): “Como respeitar a ideia de quem não respeita o idioma em que a expõe?” E, logo em seguida: “A própria narração jornalística de um fato afigura-se falha de crédito quando o relator mostra inverdades de linguagem.” Caramba, meu: escreveu errado! Como posso acreditar que a notícia está certa?

Como posso acreditar que o advogado, o representante do Ministério Público ou o juiz, nas manifestações dentro do processo, empregou corretamente a lei e o Direito, se ele empregou erradamente o Português? Como dizia o mestre Napoleão, não dá para acreditar. Quem se desleixa no falar e no escrever o vernáculo também o faz na aplicação da lei e do Direito. Não aprendeu corretamente o Português. Aprendeu e lei e o Direito? Como? Jamais, meu caro leitor. E o raciocínio vale para qualquer outro segmento da atividade humana. Quanto a isso, que ninguém se engane.

O jornalista que troca, erradamente, fim por final também pode, por incapacidade de raciocínio e de interpretação, trocar e truncar os fatos. O médico que erra no falar e no escrever também erra no diagnosticar a enfermidade e prescrever o medicamento. E por aí vai, meu caro leitor.

Fim é substantivo, final é adjetivo. O emprego de final só será legítimo quando o oposto for inicial. Quando, em vez de inicial, couber início ou começo, tem-se que escrever ou dizer fim e não final. Já, ao contrário disso, o antônimo de inicial não é fim, é final: petição inicial, petição final; pedido inicial, pedido final; decisão interlocutória, decisão final, e assim por diante. Também é correto o emprego de a inicial, porque, neste caso, equivale a petição inicial. Se é, no mínimo, estranho dizer ou escrever inicial da semana, por que, então, final da semana? Somente por erro decorrente do desleixo. “Finis coronat opus” (o fim coroa a obra), diz a máxima em latim. É o fim que coroa a obra, não é o final!

3 comentários:

Pedro Caldas disse...

Eu sempre me deparo com erros piores do que estes que você mencionou. Texto esclarecedor.

Pedro Caldas disse...

Sempre me deparo com erros como este que você mencionou. Texto esclarecedor.

Valdinar Monteiro de Souza disse...

Valeu, Pedro! Muito obrigado por acessar meu blogue, ler e comentar!
Volte sempre. Acesse. Leia. E, querendo, comente.
Abraço, meu caro!