sexta-feira, 17 de julho de 2009

TIJITICA, JITIRANA E TIJUPÁ


Tijitica, jitirana e tijupá são palavras que evocam minha adolescência e juventude na roça e, sobretudo, as figuras tão caras para mim do meu pai e do meu avô materno, único avô que conheci, ambos falecidos. Jitirana e tijupá são conhecidas desde a infância. Jitirana é uma trepadeira, um tipo de batata brava. Tijupá é uma edificação rústica, palhoça erguida no meio da roça. E tijitica? Bom, tijitica, um passarinho de que tomei conhecimento ao ler o conto “Abismo de rosas”, de Dalton Trevisan, entra aqui mais pelo jogo de palavras, mas não só por isso. É uma pequena ave (pequena ave é passarinho, óbvio) que – salvo engano, pois não sou ornitólogo – existe em alguns Estados do Sudeste (São Paulo, por exemplo).

Da jitirana, velha conhecida do lavrador da região, com ramas, folhas e flores muito parecidas com as da batata-de-purga, não tenho boas recordações. É muito difícil de capinar, de enxada ou de sacho (meu avô pronunciava chacho), pois suas ramas criam raízes e se pregam ao solo, gerando novos pés; seu leite enodoa a roupa e as mãos do trabalhador; e, como se não bastara, seu amontoado de ramas é o esconderijo preferido de cobras peçonhentas e não peçonhentas, como a jaracuçu, exemplo daquelas, e a jiboia, exemplo destas. A jitirana é, com efeito, tormento do agricultor da cultura de subsistência, como eram meu pai e meu avô: nasce sem semeadura, é difícil de capinar e cresce rapidamente, sufocando a cultura de arroz ou de feijão.

Já do tijupá, não: as recordações são boas. O tijupá é a sombra acolhedora, onde o trabalhador deixa a água de beber e os demais objetos. Quando não há tijupá, é necessário guardar a cabaça de água debaixo de qualquer moita, de preferência, moita de mofumbo, para que a água permaneça fria. É também o lugar da refeição, quando se almoça na roça, comum que é (pelo menos no meu tempo era) sair para a roça pela manhã e voltar somente à noite.

Lembro-me de que meu pai e meu avô (meus tios maternos também), logo após a queimada, faziam o tijupá (cada um em sua roça, claro), de madeira e palhas de babaçu, ou palhas de ubim. Seria o local de apoio na roça, desde o plantio até a colheita, bem como onde também ficariam guardados até a venda o arroz, o milho e outros produtos da lavoura colhidos.

Meu avô, o seu Zé Monteiro (José Monteiro da Silva era o seu nome completo), quando eu era criança, ficou viúvo e morava sozinho, no Canadá, zona rural de São Domingos do Araguaia. Saía para a roça bem cedinho, levando um litro de café, que tomaria frio (não era garrafa térmica) ao longo do dia, no tijupá. Depois, se casou com dona Maria, sua mulher e fiel companheira pelo resto da vida. Com o casamento, a vida dele melhorou: dona Maria fazia almoço e levava para ele, na roça, que almoçava na sombra do tijupá.

São algumas lembranças de um filho da agricultura de subsistência. Se fora filho da agropecuária, as lembranças seriam outras. O pobre e o rico da zona rural também são diferentes entre si, tanto pelo que pensam quanto pelo que defendem e vivem. Aliás, pobre vive na real acepção da palavra? Claro que não. Pobre não vive: germina, vegeta e morre.

E a tijitica? Bom... A tijitica... A tijitica persegue o pardal. Alguém duvida? Pois, seu moço, não duvide não! Já vi andorinhas que perseguem tucano. E o fazem com “expressão obscena de gozo” (tomando emprestado aqui outras palavras de Dalton Trevisan). Meu caro leitor, vou-lhe dizer uma coisa na qual acredito piamente: "Nem sempre bandido é bandido e nem sempre polícia é polícia. Tudo depende das testemunhas e de quem é o escrivão de plantão na delegacia da História", como escreveu Affonso Romano de Sant’Anna.

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